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Celso Amorim conta como foi seu encontro com o Papa Francisco

O Papa enviou uma bênção por escrito ao presidente Lula para não deixar dúvidas – ao contrário do que a mídia tentou fazer com o episódio em que era para ser entregue um rosário por um jovem argentino. O ex-chanceler também fala do ato que participou em apoio a Nicolás Maduro no Consulado da Venezuela em São Paulo.

É uma alegria estar aqui com os espectadores do Nocaute depois de uma semana que eu estive fora. Estive em Roma visitando a Sua Santidade Papa Francisco. Uma missão a meu ver importante porque eu fui acompanhado de um argentino, Alberto Fernandes, e um chileno, Carlos Ominami, para falar da situação do Brasil.

Foi importante ir acompanhado dessas duas personalidades, um deles foi ministro da Casa Civil de Nestor Kirchner, o outro foi ministro de Planejamento da Economia do presidente Aylwin, no Chile, mas o tema era Lula e democracia no Brasil. Muito importante que isso seja visto não só como uma preocupação do Brasil mas de toda América do Sul, continental, preocupação com algo que tem acontecido com frequência.

O Papa já havia até se referido a isso de maneira indireta, mas o recado era claro. O Papa, em sua homilia, em maio, mencionou esses processos com exemplos bíblicos. Esses casos em que ocorre difamação, calúnia, depois a mídia transforma isso numa manipulação e finalmente a Justiça se vale disse para condenar injustamente uma pessoa e depois, nas palavras do Papa, há um golpe.

Então o Papa não precisava de grandes explicações sobre o que eu fui falar, mas eu fui ilustrar em detalhe como isso tem acontecido no Brasil e fui assistido por esses dois companheiros de países vizinhos, que demonstra como a integração sul-americana avançou. Apesar de nos governos ter se distanciado, nos movimentos sociais, nos partidos políticos, é algo muito presente.

O Papa também enviou uma bênção por escrito ao presidente Lula para não deixar dúvidas – ao contrário do que a mídia tentou fazer com o episódio em que era para ser entregue um rosário por um jovem argentino.

Foi importante também porque me faz pensar em outros lugares do mundo em que há um incômodo, perplexidade, uma reação muito forte com o que tem acontecido no Brasil.

Para dar um exemplo, essa carta escrita por quase 30 congressistas dos EUA, entre eles Bernie Sanders, que foi quase o candidato democrata à Presidência e talvez tivesse chance de ganhar do Trump.

Isso tudo demonstra como o mundo vê com preocupação o que tem acontecido no Brasil. O Papa não teria aceitado esse encontro comigo tão rapidamente se não tivesse já acompanhando com preocupação a situação no Brasil.

Eu não preciso nem colocar palavras na boca do Papa ou citar o que ele tenha dito porque isso é evidente. Um amigo argentino, motivado por outro amigo chileno, escreve para o Papa e em 12 horas ele diz que estaria disposto a me receber com um fato adicional de que ele receberia outro grupo de brasileiros depois. Então teria todas as razões para adiar ou dizer para nos juntarmos.

Ele fez toda questão de receber a pessoa, no caso eu, que fui chanceler do Lula durante oito anos e ministro da presidenta Dilma também.

Isso demonstra o incômodo que a situação do Brasil causa. Temos muita esperança de que isso pode mudar. Mas é muito importante entender que essa visão só vai mudar de fato, a ideia de que o Brasil está realmente recuperando a democracia, se o Lula puder ser candidato.

Seria muito importante que essas pessoas no Brasil que tenham alguma sensibilidade, independentemente da posição política que tenham, para a importância do Brasil no mundo, da maneira como o Brasil é visto pelo mundo.

Não é uma questão de imagem, no sentido de propaganda, não é uma questão de imagem no sentido, digamos assim, de publicidade, é uma questão de percepção do que existe em ralação ao nosso país. A percepção hoje com relação ao Brasil é a pior possível, é um país que utilizou uma causa legítima, que é o combate a corrupção, para isolar, prender, e se possível impedir um candidato verdadeiramente representativo das causas sociais.

É muito interessante, eu não vou entrar nesses detalhes porque obviamente aí não foi minha visita, que logo depois da minha visita, já estava marcada antes uma visita de cinco brasileiros, entre eles nosso ilustre compatriota Paulo Sergio Pinheiro, Carol Proner, que é uma jurista importante, a mãe da Marielle, brutalmente assassinada.

A minha conversa foi uma conversa mais política sobre especificamente a questão do Lula e das eleições. A conversa deles foi mais ampla, de certa maneira direitos humanos, mas as coisas se casam e mostram que o Brasil está vivendo uma fase muito dramática de sua história, e a maneira de resolver isso é permitir que o povo brasileiro vote, que o povo brasileiro eleja seu presidente e superar esses artifícios jurídicos que foram criados para dificultar a candidatura do presidente Lula.

Claro, sempre se pode pensar, pode haver alternativas, mas o que realmente nos devolveria a credibilidade internacional, da qual o Brasil gozou, e eu sou testemunha disso, por ter sido ministro do Lula durante oito anos, o que nos devolveria essa credibilidade seria realmente a possibilidade do presidente Lula ser candidato, competir e deixar o julgamento para o povo brasileiro, afinal das contas, todas essas questões foram amplamente divulgadas, não há o que esconder tecnicalidade jurídica, deixa o povo julgar se naquilo que é apontado houve corrupção ou não, e eu tenho certeza de qual seria o veredito do povo brasileiro.

 

Também aqui na nossa região me preocupou muito o atentado contra o presidente Maduro.

 

Eu sou uma pessoa que não concordo necessariamente com tudo que está sendo feito na Venezuela, mas é preciso olhar para esse aspecto da solução pacífica dos problemas, do diálogo e do repúdio a violência.Eu vejo com grande preocupação esse tipo de ataque terrorista, porque é um ataque terrorista que ocorreu na Venezuela, que de certa maneira é um pouco novo na nossa região. Eu vejo também, a nossa passividade, pior que passividade, a nossa atitude em favor do isolamento da Venezuela, ainda que o Brasil diga que não quer uma solução violenta, uma solução militar, mas ao isolar a Venezuela, ao contribuir para polarização, e levando em conta que o grande país, a grande potência da nossa região, onde o presidente dessa grande potência disse que não excluiria uma solução militar, tudo isso leva que grupos extremados tentem cometer atos absurdos como esse que foi cometido.

Por isso mesmo eu fui participar de um momento, junto com o João Pedro Stedile e outras personalidades, tenho certeza que o Fernando Morais iria se tivesse em São Paulo, participar de uma manifestação de solidariedade ao povo venezuelano, de repúdio a violência, de defesas das soluções pacíficas e pelo diálogo que era o que costumava, mesmo antes do governo do presidente Lula, nortear a posição brasileira.

Então essas são as questões que nos ocupam no momento, a nossa grande preocupação com a continuidade do processo no Brasil, a possibilidade de que o presidente Lula seja candidato, a sua liberdade e essa luta continua existir independentes de nós vermos de maneira muito positiva o arranjo que permitiu essa aliança do PT com o PCdoB e com o PROS, que consolida uma boa parte da esquerda, uma boa parte das forças progressistas em torno da candidatura do presidente Lula.

Esse é o momento que nós estamos vivendo e saudando mais uma vez nossos espectadores, eu queria fazer o símbolo “Lula Livre”.

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