Inveja, de Iuri Oliécha. Mas o que é isso? Quem foi Oliécha?

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Aqui no Brasil se falou muito da Rússia no ano passado por conta do centenário da Revolução de Outubro. Está se falando e vai se falar muito, este ano, por conta da copa do mundo.

De literatura russa no Brasil sempre se falou. Sempre houve uma inserção muito maior do que a minúscula comunidade russa em nosso país. E um dos responsáveis, talvez o maior responsável por esta inserção injustamente desproporcional, a nosso favor, da literatura russa foi o professor Boris Schnaiderman.

Boris Schnaiderman nasceu em Uman, na Ucrânia. Quando menino, em Odessa, viu um agito em uma escadaria que depois foi descobrir estar presenciando a filmagem do clássico “O Encouraçado Potemkin”, de Serguei Eisenstein.

Schnaiderman emigrou para o Brasil ainda criança, quando adulto alistou-se na FEB para combater o nazismo na Itália – pois é teve uma época em que o Exército Brasileiro combatia o fascismo – Boris participou da campanha da Itália e morreu com 99 anos de idade, ativo, consciente, vivo e brilhante até o fim em 2016.

Boris fundou o curso de russo da USP, ele é o nosso grande pajé, o grande patriarca da russistica no Brasil. Foi ele quem sistematizou as traduções diretas do original russo. Até o Boris a intermediação entre Brasil e Rússia era feita via França, as traduções eram indiretas.

Mas não é só porque passaram a ser diretas, as traduções eram de grande qualidade. Boris era um ourives, dificilmente pegava um “romanção”, ele buscava obras mais curtas nas quais podia ir polindo com muita paciência. Todas as escolhas de Boris condicionaram quem veio depois, seja quem estudou com ele ou não.

Além disso ele foi uma figura fundamental para estabelecer o próprio cânone da literatura russa no Brasil. Muita coisa que a gente lê por aqui a gente lê porque o Boris dizia que era bom, e quando ele dizia eu, normalmente, acreditava.

No final do ano passado a Editora 34 resgatou uma tradução do Boris que estava meio esquecida, Inveja de Iuri Oliécha que havia saído há muitas décadas mas estava fora de catálogo.

Inveja, de Iuri Oliécha. Mas o que é isso? Quem foi Oliécha?

Oliécha foi um escritor russo que viveu entre 1899 e 1960. Inveja é sua obra principal, ele escreveu em 1927 e, portanto, com 10 anos de revolução russa.

Essa é uma daquelas obras que impactam tanto pelo conteúdo, quanto pela forma. Autores ocidentais quando vão explicar Oliécha pegam um monte de escritores ocidentais e começam a “tirar da cartola” – parece Proust, Kafka, Joyce – ou seja, se parece com muita coisa boa que se fez no ocidente mas parece, antes de tudo, Oliécha.

É uma novela bastante ambígua e que mostra um conflito invejoso. Kavaliérov é um intelectual decadente que inveja muito o novo homem soviético, um grande diretor da fábrica de alimentos. Mas a relação entre ele é muito ambígua, muito complicada, a gente não sabe direito com quem Oliécha está construíndo a complexidade e a identificação do leitor.

É uma leitura para lá de sofisticada, que só poderia ter sido trazida para nós pela mão de Boris Schnaiderman.

É uma novela de 1927, Oliécha morreu em 1960, ele não foi para gulag, ele não foi para campos de prisioneiros, ele não chegou a ser morto e torturado como muitos escritores russos, mas obviamente que uma escrita tão matizada e tão sofisticada já não cabia nos ditames do realismo socialista de Stálin.

Então, Oliécha, depois dessa novela, viveu um período de ostracismo na União Soviética e só veio a ser descoberto depois pelos russos e agora pode ser descoberto por nós, aqui no Brasil.

Convido você a conhecer Oliécha pelas mãos de Boris Schnaiderman.

2 COMENTÁRIOS

  1. Olá!
    Há trinta anos Poemas de Maiakóvski – com tradução do irmãos campos e Bóris Schnaiderman é um dos meus livros de cabeceira e de coração.
    Gostei muito da dica sobre “A Inveja”, do Iuri Oliécha. Vou conhecer. =)
    Abraço.

  2. É bom saber “Inveja”, de Iuri Oliecha, foi reeditado. Mas é pena que o articulista, no afã de fazer proselitismo barato, tenha inserido o comentariozinho peçonhento “pois é teve uma época em que o Exército Brasileiro combatia o fascismo” no texto – como se as Forças Armadas Brasleiras de hoje tivessem qualquer viés políico.
    Tal piadinha, barata e inverídica, destoa completamente do conceito de “polir o texto” que ele tão justamente louvou em Boris Schnaiderman, e que, como conhecedor e admirador da sua obra, deveria pelo menos tentar seguir.

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