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Trump, eleições no Brasil e a ascensão do fascismo neoliberal

O fascismo neoliberal é a expressão máxima de uma cultura política que “erode a memória, substitui a emoção pela razão, abraça o anti-intelectualismo” e o individualismo, enquanto, ao mesmo tempo, instrumentaliza medos e preconceitos profundamente enraizados no tecido social.

Muitas vezes, fenômenos aparentemente desconexos, como as políticas de Trump ou os cenários para as eleições no Brasil, podem possuir chaves explicativas comuns. E uma delas é o fenômeno classificado pelo acadêmico canadense Henry Giroux como “fascismo neoliberal”. Para ele, o fascismo neoliberal é caracterizado pela substituição de preceitos básicos do contrato social pela lógica brutal do individualismo, banalizando valores democráticos, e entorpecendo a sensibilidade dos indivíduos com a desgraça coletiva – tudo se resumo a uma questão de trabalhar duro para garantir o seu, e os outros que sofram as consequências de suas próprias fraquezas. E segue: para que esse processo tenha sucesso, é imprescindível que o pensamento crítico seja substituído por percepções individuais de mundo, onde os fatos históricos são relativizados para justificar a desumanização do outro. O “cinismo substitui a esperança”, e através de uma mistura de “amnésia social, justiça punitiva e teatro de crueldade”, ações que seriam exasperantes são “cada vez mais aceitas por segmentos do público que recusam ou são incapazes de conectar problemas e preocupações privados com forças sistêmicas mais amplas”.

O fascismo neoliberal é a expressão máxima de uma cultura política que “erode a memória, substitui a emoção pela razão, abraça o anti-intelectualismo” e o individualismo, enquanto, ao mesmo tempo, instrumentaliza medos e preconceitos profundamente enraizados no tecido social. A violência estrutural é reduzida à tal “polarização”; políticas imperialistas que induzem crises devastadoras são justificadas pela retórica da “segurança nacional”; decisões de organismos internacionais só são acatadas quando são convenientes. É por isso que os Estados Unidos, por exemplo, se reservam ao direito de torturar prisioneiros ou atacar uma cidade síria com fósforo branco ou ameaçar com sanções membros de organismos multilaterais que ousem investigar suas “táticas” de guerra. É por isso que vemos demonstrações de apologia à violência dos mais diversos matizes sendo encaradas com uma naturalidade assustadora – a banalização do mal, como diria Hannah Arendt. Não deixa de ser significativo que membros da administração Trump tenham buscado falar com Bolsonaro depois da facada, enquanto, salvo engano, o atentado a tiros à caravana de Lula ou o assassinato de Marielle não receberam a mesma atenção.

Quando as articulações sociais que visibilizam o sofrimento humano são destruídas, e o individual prevalece sobre o coletivo, tudo é passível de ser justificado ou relativizado. Cabe a nós nos perguntarmos quem ganha com isso.

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  1. O fascismo neoliberal é o antihumanismo. O centro é a expressão do horror que vem crescendo no mundo capitalista no qual o deus-mercado estabelece os únicos critérios considerados relevantes para a sociedade.
    A religião no fascismo neoliberal não é a religação com o sagrado, mas sim com o profano ato de transformar Deus em objeto para justificar os atos torpes da dominação em atos do bem. O mundo jurídico estabelece seu poder na interpretação da lei para servir ao sistema e a transforma cotidiamente em uma lei em frequente movimento. Objetiva sempre atender às demandas do status-quo dando a ela um carater próprio e ao arrepio de sua verdade jurídica. A Constituição é massacrada e posta de lado e é frequentemente desrespeitada e pisoteada pelo judiciário. Atos selvagens são tratados com negligência e relativizados ao extremo para punir a vitima e inocentar ao culpado.
    O fascismo neoliberal descoletiviza o individuo para acentuar o individualismo e negar a ordem social que estabelece o indivíduo como parte do coletivo sem contudo negá-lo.
    O fascismo forma uma sociedade policialesca e castradora do homem como ser social e o desconsidera como inserido na ordem de direitos e deveres, com códigos de decência e moralidade.
    Ao fascismo neoliberal interessa apenas tratar o homem como massa de manobra dos seus interesses para utilizá-lo na servidão a ele.
    Tristes tempos.

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