América Latina

Ao sul do muro, o imperialismo retrocede

A vitória de López Obrador no México acendeu um debate acalorado: estaríamos diante de uma nova guinada à esquerda na América Latina ou estaríamos presenciando a chegada ao poder de mais um Lenin Moreno?

A vitória de López Obrador no México acendeu um debate acalorado: estaríamos diante de uma nova guinada à esquerda na América Latina ou estaríamos presenciando a chegada ao poder de mais um Lenin Moreno?

Apesar de vir de uma família de políticos progressistas, Obrador não vem das fileiras tradicionais da esquerda mexicana. Liberal progressista, sua plataforma se baseia na luta contra a corrupção, a revisão de algumas das diversas reformas estruturais que desmontaram os poucos avanços do Estado mexicano em relação aos direitos sociais e a renacionalização de recursos básicos, especialmente a revisão de concessões petroleiras – o que lhe rendeu absurdas comparações tanto com Lula quanto com Chávez. Por outro lado, também propõe uma espécie de nova “Aliança para o Progresso” – o que coincide, em parte, com o projeto proposto por Trump para a América Central.

Em seu primeiro discurso após a vitória, Obrador apontou para uma mudança fundamental na política externa mexicana: o respeito à autodeterminação dos povos, o que traria um empecilho bastante significante para a agenda de Washington na região, uma vez que o México é uma peça de primeira importância dentro do sistema de dominação regional estadunidense e uma das mais importantes reservas estratégicas na manutenção dos Estados Unidos como uma potência global. Sua posição geográfica faz com que seja um laboratório perfeito para ações contrainsurgentes, como as de 88, 94 e 2006, que levou à escalada do terrorismo de Estado, com um saldo de aproximadamente 300 mil assassinados e mais de 37 mil desaparecidos.

Se é verdade que Obrador não vai fazer uma revolução no México, também a verdade que essa é uma vitória histórica digna de ser celebrada.

Em primeiro lugar, porque aponta para o evidente declínio das oligarquias do país, que não conseguiram vencer nas urnas ou criar as condições para mais uma fraude eleitoral. Em segundo lugar, mas talvez ainda mais importante, a vitória de Obrador abre a possibilidade de que finalmente o México comece a fazer frente ao imperialismo – e tenha alguma esperança de superar a violência e tantos outros problemas que assolam o país. Sua vitória é uma promessa de que o México volte a olhar para o sul – o que é, decisivamente, um sopro de esperança para toda a América Latina.

Muita água pode rolar daqui até dezembro – e, apesar do reconhecimento público da vitória de López Obrador feito por Trump e pelos candidatos de oposição, não seria prudente descartar de todo a possibilidade de que não possa governar – seja por impedimento da própria máquina estatal mexicana, seja por movimentos de desestabilização que vemos se espalhar com cada vez mais frequência na região.

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