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Serguei Dovlátov, entre a realidade e a ficção


Numa época em que uma discussão bastante premente na literatura contemporânea são os limites entre realidade e ficção, é muito pertinente ler o autor russo Serguei Dovlátov.
Dovlátov nasceu em 1941 e morreu precocemente em 1990.
Ele atuou muito como jornalista na antiga União Soviética. Teve dificuldades, não conseguiu publicar seus livros e então acabou imigrando para  os Estados Unidos.
Lá, amigo do poeta vencedor do prêmio Nobel Joseph Brodsky, publicou bastante se tornou uma celebridade internacional e morreu na “crista da onda”, no auge da fama, e rapidamente se tornou um ícone da juventude pós soviética, da juventude boêmia, por esse seu estilo bastante bem humorado.
A entrada da literatura de Dovlátov no Brasil é bem recente. Foi só no fim de 2016 que a editora Kalinka publicou o primeiro livro dele em nosso país, o livro “Parque Cultural” – traduzido por Yulia Mikaelyan.
O livro conta as desventuras de Dovlátov como guia turístico de um parque temático dedicado ao pai fundador da literatura russa, Aleksandr Púchkin – uma espécie de Disneylândia de Púchkin, uma Disneylândia literária.
Agora, esse ano, bem recentemente, Kalinka lançou o segundo livro de Dovlátov no Brasil, O Ofício – tradução de Yulia Mikaelyan a quatro mãos com Daniela Mountian. Esse livro tem duas partes, a primeira delas se passa em Tallinn, a capital da Estônia, onde Dovlátov atuou como jornalista e tentou publicar seus livros, sem ter sucesso. E a segunda parte se passa já nos Estados Unidos.
Dovlátov fazia autoficção antes de virar moda – vamos dizer assim.
A gente nunca sabe de quem exatamente ele está falando, claro, o personagem se chama Dovlátov, é ele, e é narrado em primeira pessoa. O autor insere muitos personagens reais, mas ele também mistura esses personagens, inventa fatos, atribui a essas pessoas coisas que elas não fizeram e no livro “O Ofício”, em meio a muito bom humor, ele chega a pôr coisas que ele diz que são cartas de recusa, resenhas de livros e até o que seria um documento da KGB sobre ele.
O quanto disso é verdade a gente não sabe.
O que é encantador em Dovlátov é essa ironia que ele volta contra tudo e contra todos, contra si mesmo, contra seus amigos, contra a comunidade russa nos Estados Unidos e até contra a sociedade americana.
Ele ficou feliz por estar nos Estados Unidos mas isso não o impediu de ser irônico. Por exemplo, tem uma passagem que ele narra o que um editor nos Estados Unidos disse para ele, negando-lhe a publicação de suas obras:
– “Você morava na União Soviética e publicava no ocidente, poderia facilmente ter acabado em uma prisão, ou em um hospício. Em casos assim, os jornais ocidentais fazem um escarcéu, isso contribui para as vendas do livro.

Mas agora, você está em liberdade. E com o seu modo de vida atual você dificilmente vai parar em uma prisão, por isso deixarei de lado a publicação de seu livro até chegarem tempos melhores.
– Ele disse assim mesmo, até chegarem tempos melhores. Isso significa, até eu ir para uma prisão americana”.
Dovlátov recentemente foi o tema de um filme na Rússia, um filme de Aleksêi Guérman Jr., lançado esse ano no festival de Berlim – na Berlinale. Filme que foi premiado com um Urso de Prata por realização artística.
Graças a esse destaque o filme vai ser exibido aqui no Brasil. O filme que iria estrear no segundo semestre, por conta da Copa, teve sua estreia antecipada para junho.
Então, além de ler Dovlátov eu convido você a ver Dovlátov em tela grande.
Mais Nocaute:

A mídia brinca de esconde-esconde. E o povo, de cabra-cega entre os fatos.

Caixa-Preta fala sobre FHC, Odebrecht e a quebra de sigilo de Temer


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