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Celso Amorim: Fim do acordo EUA-Irã faz mundo amanhecer mais perigoso


Hoje o mundo amanheceu mais perigoso. Porque ontem o presidente dos Estados Unidos, a nação mais poderosa do mundo, anunciou a sua retirada do acordo, tem um nome complicado, programa de ação conjunta global etc, mas que na realidade era o acordo sobre o programa nuclear iraniano.
Era um acordo que envolvia, do lado das grandes potências, seis país. Cinco membros permanentes do Conselho de Segurança: Estados Unidos, Rússia, China, França, Inglaterra e mais a Alemanha de um lado, e o Irã de outro. E por esse acordo muitas sanções que vinham sendo impostas ao Irã antes foram suspensas, e por outro lado o Irã assumiu compromissos importantes em matéria de fiscalização do seu programa nuclear para garantir que ele não seja desviado para fins militares.
É interessante notar, do ponto de vista brasileiro, porque nós juntamente com a Turquia atuamos de uma maneira muito forte nesse campo e conseguimos na época um acordo que seguia, mais ou menos, as diretrizes que haviam sido propostas pelos EUA, mas na última hora os EUA mudaram de ideia e não aprovaram nosso acordo. Mas como dizia o György Lukács citando Hegel, “o erro é o momento da verdade”, então o nosso acordo que não foi aceito serviu de inspiração para que cinco anos depois houvesse esse acordo desse grupo de países conhecido como P5+1. É um acordo importante, porque é um acordo que ao mesmo tempo garante a possibilidade do Irã ter energia nuclear, inclusive enriquecimento para fins pacíficos, e por outro lado também dava garantia suficiente para o resto da comunidade internacional de que essa energia nuclear não iria ser usada para fins militares.
Por que o Trump denunciou isso? Eu acho que há dois ou três aspectos que devem ser ressaltados.
Primeiro: a pressão de Israel, o atual primeiro-ministro de Israel sempre foi contra o acordo e já produziu vários discursos com ilustrações sobre como o Irã está próximo de ter uma bomba e que isso é uma ameaça existencial para Israel, então sempre teve essa pressão; e como o presidente Trump age muito sobre pressão de grupos específicos, sem que tenha uma coerência numa visão de mundo, ao mesmo tempo em que ele começa a ter um diálogo de negociação com a Coréia do Norte, adota essa atitude com o Irã.
E aí entra a segunda razão: os EUA e sobretudo aquilo que eles chamam de governo oculto, que inclui a CIA, NSA, o Pentágono têm a necessidade de ter um inimigo. E até na medida em que a Coréia do Norte se torna um interlocutor menos imediatamente ameaçador, pelo menos essa é a aparência depois das conversas entre as Coréias, o inimigo eleito se torna o Irã. Já vinha tendo essa pressão por parte de Israel e que agora coloca o Oriente Médio em grande perigo. Aliás o ministro do Exterior francês disse que “o Oriente Médio merecia algo melhor”, porque de fato coloca em risco. E por que coloca em risco? Coloca em risco porque o Irã é um interlocutor indispensável. Não há a possibilidade de haver um acordo sobre a Síria, que já sofreu tanto, sem que o Irã participe. Isso não é uma questão de gostar ou não gostar, é um fato real. Se houver um acordo sem o Irã, ele irá agir contra. Um dos países que tem força para dizer pro governo sírio ou para certas forças na Síria como se comportar de determinada maneira é o Irã. Então esse é o segundo aspecto, da necessidade de ter um inimigo.
E o terceiro aspecto que tem de ser destacado, algo que surpreende para quem faz uma análise histórica dos EUA, é que isso tudo se encaixa numa atitude norte-americana que é nova, não necessariamente boa, que é a atitude de desconhecer as normas internacionais. Veja bem, grande parte dessas normas internacionais foram criadas pelos próprios EUA. Ele foi o líder dessas normas no final da segunda guerra mundial, a ONU, o GATE, que resultou na OMC. E ao mesmo tempo que ele está tomando uma atitude totalmente unilateral, belicosa em relação ao Irã, ele está também agindo unilateralmente na área comercial, questão que afeta muitos países inclusive o Brasil, mas principalmente a China. Uma verdadeira guerra comercial, criticada inclusive por jornais como Financial Times, pela Economist, analistas que não têm nenhuma razão para serem críticos aos EUA.
Então eu acho que há um perigo nisso tudo também. Não só pelo que representa o Irã para aquela região e para a ameaça de um conflito envolvendo Israel etc e a dificuldade de resolver conflitos já existentes, mas porque ele sintetiza esse desprezo pela norma internacional, que já se havia revelado no acordo do clima e em várias outra questões. Isso acaba sendo importante para a nossa região, não só porque o que acontece no Oriente Médio impacta o resto do mundo, mas também porque essa atitude de agir unilateralmente pode também se replicar aqui.
Ontem eu vi pelo noticiário a embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, disse que o Maduro tem que ir embora. O que ela vai fazer se o povo da Venezuela votar pelo Maduro? Não estou defendendo tudo o que acontece lá, eu acho que o isolamento acaba criando uma psicologia de cerco que não é positiva, mas é o que está acontecendo lá. E o que nós podemos pensar ou temer? Que diante de uma situação que não seja aquela que os EUA desejem possa haver algum tipo de ação que já foi mencionado pelo antigo Secretário de Estado, o Tillerson, pelo próprio Trump quando ele disse que não excluía o uso da força que coloque nossa região em perigo.
Então eu acho que o Brasil não pode se ausentar, o Brasil que no passado teve um papel muito grande entre os países. O Brasil deveria estar negociando, conversando, apoiando esses países europeus que estão discutindo. O Brasil, como a Índia, tem influência no mundo em desenvolvimento. Hoje não tem nenhuma porque a política externa brasileira é absolutamente zero, quando não é negativa.
Seja como for, é um tema importante, o mundo está mais perigoso e não se sabe a que isso pode levar. Porque os americanos têm falado também contra o desenvolvimento de míssil, podem ser tentados a algum tipo de ação que seria trágica no caso do Irã, mais trágico ainda do que foi no caso do Iraque. Isso nos deixa apreensivo em relação ao futuro do mundo.
E essa falta de percepção em relação à ordem internacional, às normas internacionais, inclusive aquelas que os próprios EUA ajudaram a criar é algo extremamente preocupante.

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  2. Celso Amorim, sempre a visão perfeita. O poder econômico norte-americano vive de insuflar o poder bélico (NSA, Pentágono, CIA e etc) para com ondas de fluxos e refluxos, manter o mundo submisso aos seus interesses. Não conseguem viver sem eleger um inimigo externo. Se não for A , será o B.

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