América Latina

A cegueira do liberalismo

O físico e empresário baiano Cláudio Guedes* faz um retrato da atual Argentina de Macri e compara com os rumos que o Brasil está tomando. “A Argentina sofre com a cegueira do neoliberalismo, tão velho e sobretudo tão desalentador. Os ricos daqui insistem em políticas de exclusão social, num país à semelhança do nosso, onde a desigualdade é um gargalo que trava as possibilidades do desenvolvimento progressivo e sustentável da sociedade.”

Em Buenos Aires, como muitas vezes ao chegar, faço um passeio a pé do centro, ou quase centro, à Recoleta. Vou atrás dos mocassins do Guido, sapatos que uso há quase 40 anos.

Lá está a loja de paredes brancas e a escada estreita que nos leva ao primeiro piso. Sou atendido pelo mesmo senhor, me lembra Lúcia Pilla, que usa as mesmas frases. Tudo tão igual, tempo paralisado. Os mocassins continuam ótimos. Macios, com couro de qualidade e boas solas.

Na frente do elegante prédio, na calçada, uma moça e uma quase barraca móvel, improvisada, vendendo frutas frescas.

Saímos da loja e andamos pelo bairro à procura de um lugar simpático para tomarmos um drinque antes do almoço. O entorno parece triste, as pessoas na rua não aparentam felicidade, muitas lojas fechadas.

A Argentina sofre com a cegueira do neoliberalismo, tão velho e sobretudo tão desalentador. Os ricos daqui insistem em políticas de exclusão social, num país à semelhança do nosso, onde a desigualdade é um gargalo que trava as possibilidades do desenvolvimento progressivo e sustentável da sociedade.

Os últimos números mostram que a inflação elevada e a recessão econômica na Argentina elevaram o índice de pobreza do país para 32% no segundo semestre de 2018, uma alta de 4,7 pontos percentuais ante a primeira metade do ano. É o número mais alto desde a crise econômica de 2001. Quase um terço do país forma um exército de excluídos.

Na comparação com o segundo semestre de 2017, a pobreza urbana cresceu 6,3 pontos percentuais no país. São 8,9 milhões de argentinos vivendo nessa situação.

Uma parte da Argentina, como o Guido, permanece parada no tempo. A qualidade conquistada no passado permite uma longa sobrevida. Mas a vendedora de frutas na calçada indica que os desafios do futuro são muitos e não combater a pobreza crescente, com políticas de inclusão social, é um erro que tornará o futuro incerto e temerário. Nenhum país no mundo foi para lugar algum fazendo política econômica apenas para o andar de cima.

A Argentina regredindo. O Brasil seguindo o mesmo caminho.

(*) Baiano e físico de formação, Claudio Guedes é empresário.

 

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