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A morte do Museu Nacional é a crônica de uma tragédia anunciada

O quinto maior acervo do mundo que era abrigado no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, foi reduzido a cinzas. O Museu não tinha sistema de segurança contra incêndio, e 90% do acervo foi destruído pelo fogo. Nocaute ouviu profissionais e dirigentes do Museu e de outras entidades culturais que também passam por problemas com os cortes de verbas e descaso das autoridades.

Na última sexta-feira, dia 31 de agosto, o golpe que destituiu a presidente Dilma Rousseff completou dois anos. Dois dias depois, na noite de domingo, 2 de setembro, mais uma tragédia assolou o país – foi, aliás, mais uma das consequências do golpe: o incêndio do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista.

A mais eloquente reação do governo Temer veio de seu ministro de Governo, Carlos Marun:

  • Agora que aconteceu tem muita viúva chorando. Eu não tenho visto ultimamente, na televisão, por exemplo, pelo menos em um horário, alguém destacando o museu, para que ele se tornasse mais amado pela nossa população. Está aparecendo muita viúva apaixonada, mas, na verdade, essas viúvas não amavam tanto assim o museu.

Uma tragédia anunciada, na verdade.

Uma das primeiras medidas do governo golpista e ilegítimo do Temer foi a PEC 241, também conhecida como a PEC do congelamento do teto dos gastos. Uma Proposta de Emenda Constitucional que congela os gastos sociais do governo federal por 20 anos. Na prática, isso significa deixar as áreas de educação e cultura do país sucateadas.

O incêndio no Museu Nacional chamou a atenção para os sérios problemas por que passam outras instituições como, por exemplo, o Museu Paulista – conhecido como Museu do Ipiranga – fechado para obras desde 2013. O prédio, administrado pela USP, foi fechado às pressas em agosto de 2013 após a constatação de problemas em sua estrutura, incluindo risco de desabamento de parte do teto. A previsão é que o museu só será reaberto em 2022.

Administrado pela USP, o MAC (Museu de Arte Contemporânea), instalado no prédio do Ibirapuera, onde funcionava o Detran, também aguarda reformas. A reportagem do Nocaute conversou com a Silvia Meira, responsável pelo Programa de Conservação Preventiva do MAC.

Segundo ela, “os atores culturais se preocupam com a visibilidade das ações e pouco com os bastidores. Tudo que não traz visibilidade e ganhos políticos imediatos, como a salvaguarda e a conservação do edifício e de suas coleções, é relegado a segundo (ou nenhum) plano. Tutelas (públicas e privadas) e financiadores de museus costumam preferir concentrar seus “investimentos” em ações mais aparentes.”

Nocaute apurou que nem mesmo a manutenção básica é realizada em alguns dos museus públicos, como a vistoria regular de extintores de incêndios e da rede elétrica. Os exemplos estão nos arquivos dos jornais, como os incêndios do Memorial da América Latina e do Museu da Língua Portuguesa.

Nocaute ouviu também Solange de Sampaio Godoy – museóloga e historiadora, ex-diretora de outra instituição instalada no Rio, o Museu Histórico Nacional:

Para Solange, na tragédia do Rio “a perda é do saber, do esforço de várias gerações no intuito de coletar dados, estudar, publicar. É um desânimo perder gerações de trabalho árduo, de dedicação. Reconstruir as paredes e refazer o telhado é o de menos”. “Enquanto o governo não encarar a cultura como um processo importantíssimo para o país, essas coisas vão ficar capengas. Para construir uma política você não começa pelo dinheiro, mas pela noção de prioridade.”  

A reportagem conversou ainda com o vice-diretor do Museu Nacional, Luiz Fernando Dias Duarte, e com o arqueólogo Eduardo Góes Neves.

Vejam as entrevistas:

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  1. José Eduardo Garcia de Souza says:

    É estranho tentar colocar a culpa do incêndio no Temer – coisa que o Boulos, a Dilma e a Gleisi fazem por qualquer coisa, inclusive unha encravada -, já que, como informa a EBN, em matéria de junho deste ano, “A direção do Museu Nacional e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) assinaram hoje (6) um contrato que prevê investimento de R$ 21,7 milhões para o plano de revitalização do prédio histórico, seu acervo e espaços de exposição. O Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, zona norte do Rio, completa 200 anos em 2018. Os recursos são um apoio não reembolsável do BNDES à instituição e serão aplicados na recuperação física do imóvel, acervos, espaços expositivos e na revitalização do entorno do museu. O objetivo é garantir mais segurança às coleções e reforçar o trabalho dos pesquisadores para aumentar a demanda de público, além de promover políticas educacionais vinculadas aos acervos.… O valor previsto no contrato assinado hoje corresponde à terceira fase do plano de recuperação do museu, que tem um total de R$ 28,5 milhões. Mais R$ 24 foram milhões investidos nas fases anteriores. Os recursos serão usados também para o fortalecimento da gestão da instituição, com ações de aprimoramento e esforços para a constituição de um fundo patrimonial (endowment) que contribua para o futuro das atividades do museu.”

    Quem quiser conferir a matéria completa, o link é http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2018-06/museu-nacional-recebe-r-21-milhoes-para-revitalizar-predio-e-acervos

    POrtabnto, é também estranho que este bloig até agora ainda não tenha mencionado fatos publicados e, menos ainda, o fato de que em dois anos, nada menos de quatro incêndios tenham ocorrido em prédios sob a administração da UFRJ, cuja lista de diretores vai aqui abaixo..
    Reitor: Roberto Leher – filiado ao PSOL;
    Vice-reitora: Denise Fernandes Lopez – filiada ao PSOL;
    Pró-reitor de graduação: Eduardo Gonçalves – filiado ao PCB;
    Pró-Reitor de Planejamento, Desenvolvimento e Finanças: Roberto Antonio Gambine Moreira – filiado ao PCdoB;
    Pró-Reitora de Extensão: Maria Mello de Malta – filiada ao PSOL;
    Pró-Reitor de Pessoal: Agnaldo Fernandes – filiado ao PSOL.

  2. Liu Idárraga O. says:

    Como bióloga e taxónoma –que baseo meus estudos em material tombado nos museus, a incinerizaçao do Museu Nacional de História Natural é uma tragédia–, mas como exsocorrista também foi uma tragédia os bombeiros nao ter tido a dotaçao adecuada para atender um evento desta magnitude e o despreparo da polícia para ajudar a salvar o patrimonio. Personalmente nunca vi uns bombeiros tao despreparados para atender um evento desta magnitude. Como mínimo o Brasil deveria ter tido um helicóptero hidrante atendendo a tragedia, porque é ridículo pretender sofocar um incendio dessa magnitude só com três carros cisternas. Quando escutei os helicópteros sobrevoando o prédio imaginei que eram helicópteros hidrantes, mas foi uma triste surpresa ver que eram só helicópteros da mídia. Também fiquei muito chateada pela inoperancia das forças policiais e militares, parece que no Brasil o único treinamente que da para elas é para reprimir a populaçao civil e impedir a mída alternativa entrar para cubrir o evento. Em toda Latinoamérica e no mundo a policia teria sido utilizada para ajudar a salvar parte do patrimonio, coisa que nao foi vista neste caso, as imagens mostram os policias quetos, falando ou revisando o seu celular… realmente indignante. Nem na segunda guerra mundial os museos perderam todo o seu acervo; na minha teses, por exemplo tenho analisado material sobrevivente de museus bombardeados, pois é muito claro que naqueles paises se têm uma preocupaçao de salvar o seu patrimonio cultural e científico. Realmente nao sei que me produz mais indignaçao, se as causas pelas quais o incendio aconteceu (o corte da verba para a ciência e a cultura) ou a inoperancia das forças policias e a dotaçao insuficiente dos bombeiros para atender este tipo de tragedias. Estou quase convencida que com um helicóptero hidrante e mais caminhoes cisternas ao menos 2/3 do acervo seria salvo.

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