Brasil

O jornalismo de ódio levou a Abril para o buraco

O presidente executivo Giancarlo Civita e o presidente do conselho editorial, Victor Civita Neto, pegaram o boné e deixaram a empresa sob o comando da consultoria Alvarez & Marsal, que nomeou o executivo Marcos Haaland como o novo CEO.

O grande fato da conjuntura, no agônico universo da mídia corporativa brasileira, é o passamento da Editora Abril.

O antigo gigante editorial, a dois anos de tornar-se septuagenário, passou das mãos da família Civita para a de seus credores.

O presidente executivo Giancarlo Civita e o presidente do conselho editorial, Victor Civita Neto, pegaram o boné e deixaram a empresa sob o comando da consultoria Alvarez & Marsal, que nomeou o executivo Marcos Haaland como o novo CEO.

A consultoria é especializada na recuperação de empresas em situação pré-falimentar. Com a Abril endividada e insolvente, os Civita saem de cena e a empresa cai nas mãos dos bancos.

Não é exatamente um destino glorioso para a editora fundada em 1950, pelo ítaliano naturalizado norte-americano Victor Civita.

Ela começou com o Pato Donald e agora é tragada pelo Brasil dos patos.

Este “novo Brasil” em que o “mercado” dá as cartas e promete nos levar ao paraíso, embora entregue apenas o inferno da estagnação econômica, do desemprego e da crise social.

Os outros grupos midiáticos ainda não bateram na lona como a Abril, mas estão próximos do nocaute. Nenhum deles, Globo incluído, tem a vitalidade de tempos passados.

O discurso oficial da mídia para a sua crise é de que tudo é causado por mudanças estruturais na sua base tecnológica.

O avanço rápido da internet atropelou os veículos impressos e eletrônicos tradicionais, e destruiu os modelos de negócio anteriores.

A publicidade, na qual esses modelos se baseavam, migrou para os veículos digitais e deixou os velhinhos da mídia a verem navios de dívidas.

Tudo isso é verdade, mas se audiência e circulação dependem de volume de público consumidor, uma decisão política dos grupos de mídia teve peso enorme no seu atual infortúnio. E, como tantos outros fatos, é omitida por eles.

Foi a aposta na radicalização do discurso em favor do mercado e de sua ideologia, e na demonização de tudo e todos que defendessem o trabalhismo, o socialismo, qualquer alternativa de esquerda, incluindo o moderadissimo nacional-desenvolvimentismo.

A ponta de lança dessa ofensiva foi justamente a revista VEJA, a jóia da Editora Abril, pioneira em se lançar no jornalismo de campanha ultradireitista, há mais de dez anos.

Seguindo o mesmo rumo ditado por Rupert Murdoch para a mídia corporativa mundial, a VEJA converteu o PT, o partido dito “populista” que estava no poder, no grande alvo nacional, o ícone da corrupção, o inimigo a vencer para a salvação do Brasil.

Foi seguida e apoiada por toda a grande imprensa nacional, com os resultados conhecidos por todos: um impeachment fraudulento, a economia arruinada e um governo pós-petista desastroso, do qual todos agora tentam se afastar.

Ao fazer a sua guinada radical à direita, insultando e demonizando a esquerda sem cessar, a mídia perdeu inevitavelmente mercado.

Foi abandonada pelos leitores, ouvintes e espectadores de esquerda, sempre os mais interessados em informação, análise e debate.

A mídia jogou fora o filé de seu público, para abraçar-se com os consumidores de direita, que não responderam como era esperado.

Agora eles se nutrem de memes e fake news produzidas diretamente por agências ideológicas tipo MBL nas redes sociais, e chegam mesmo a acusar uma Globo ou uma Folha de “esquerdistas”.

A mídia tanto fez pela depuração ideológica de seu público, insuflando nele o amor pelo ódio, que acabou fecundando o seu próprio ovo da serpente.

Ele quebrou, a serpente escapou, odeia todo mundo e agora o refúgio dos barões midiáticos é o cofre dos bancos.

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  1. Claudio ,sou setentao mas espero que meus netos ainda vejam a abril,estadao,folha,globo e suas publicaçoes que so servem para estar em consultorios e salas de espera ,onde dificilmente vemos alguem lendo um livro, fechando as portas sem deixarem saudades.

  2. Rosana Tonetti says:

    Excelente, Gabriel Priolli! Lamento esta tormenta na Editora, para a qual também trabalhei. Lamentável a guinada radical à direita, sobretudo de seu carro-chefe: Veja

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