Marcos Valério: A expressão ‘mensalão’ foi inventada pela imprensa para vender jornal

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Foto: EBC

Segundo o ex-publicitário Marcos Valério, preso acusado de ser o operador do chamado “mensalão”, a expressão foi cunhada “para vender jornal” e “nunca foi mensalão”. A declaração foi dada em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, sem entrar em maiores detalhes por causa de um acordo de delação premiada em andamento.

Valério está preso na Associação de Proteção e Assistência aos Condenados de Sete Lagoas (MG), onde dá aulas de pintura para outros presidiários e é um dos oito membros do CSS (Conselho de Sinceridade e Solidariedade), pilar de funcionamento da unidade. A transferência dele da prisão de segurança máxima Nelson Hungria, em Contagem (MG), foi uma das condições do acordo.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

“Desculpa, mas as facções só vão crescer e se tornar mais fortes. Não se iluda. Tem político eleito com dinheiro das organizações [criminosas]. Elas estão dentro dos partidos políticos.

“Quebrei meu punho lá dentro [da Nelson Hungria]. Tem inquérito. Um agente colocou uma algema bem apertada e quebrou o osso [aponta para o punho esquerdo, que tem uma mancha escura no lugar onde o osso calcificou deformado]. Um recado muito bem dado para eu não criar tanto problema. E aí tive que tomar cuidados redobrados.”

“O Estado é uma força de contenção. Te mantém naquele cercado. Mas dentro ele não te protege. Ele [o preso que é empresário ou bilionário] vai ser obrigado a financiar o crime lá fora. O Estado criou isso quando misturou todos.”

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“É mais perigoso viver lá fora do que dentro do sistema. No meu caso, eu aprendi a viver lá dentro e a me proteger. Respeito muitos presos da Nelson Hungria. E sei que eles me respeitam. Dentro do código de honra deles, eu fui muito leal a eles e eles a mim.”

Marcos Valério se recusa a falar sobre os cem dias que passou na Penitenciária 2 de Tremembé (SP), entre outubro de 2008 e janeiro de 2009, quando teve prisão preventiva decretada em um processo em que é acusado de forjar um inquérito para prejudicar fiscais que haviam multado a cervejaria Petrópolis.

Após ser espancado várias vezes na cela, ele teria conseguido proteção do PCC (Primeiro Comando da Capital) para se manter vivo dentro da penitenciária. “Não tenho interesse de conversar sobre esse assunto. Já passou”, disse, sobre os episódios que deixaram cicatrizes nas costas e resultaram em implante dos dentes da frente da arcada superior.

“Fico triste [com a prisão de Lula]. Pelos familiares e também pelo transformador que Lula foi. Apesar de todos os erros que cometeu. Tenho certeza de que ele vai analisar e chegar a esta conclusão. Mas ele foi um transformador. Um ícone, né? Eu fico triste. Não faz bem para o país Lula preso.”

“É um cunho que a imprensa criou para vender jornal, mas nunca foi Mensalão. É outra história. Não posso entrar muito nesse assunto, pois estou negociando delações.”

“[A chegada na cadeia] Foi terrível. Momentos de muita solidão, muito choro. Não tem ninguém que não chora. Na hora que fecha a porta de uma cela, chora sozinho.”

“Há muita humilhação. Começa com a fila. As visitas têm que chegar de madrugada. Tem a revista. Às vezes, o ‘body scanner’ está estragado. A mulher precisa abaixar a calcinha, colocar um espelho e abaixar três vezes. Imagina o que é isso para minha mãe de 84 anos? Para a filha, a a esposa?”

“A depressão vem nos primeiros dias. Levantar era uma vitória. Depois, vem a fase de viver o dia a dia. E isso vai nos tornando mais insensíveis. As coisas se tornam mais brutas. E, no sistema tradicional, essa brutalidade é mais evidente.”

“Dentro do sistema prisional, cresceu em mim o respeito por uma pessoa chamada Edir Macedo [líder da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da Rede Record]. Ele leva dentro da religião dele um consolo aos presos. Eu respeito muito a Igreja Universal, que pode ter os erros dela, mas a Católica também teve a Inquisição.”

Assista abaixo “Mensalão AP 470, STF, Julgamento Medieval”, vídeo apresentado pelo editor do Nocaute, Fernando Morais, e apurado pelos repórteres Raimundo Rodrigues Pereira e Lia Imanishi, da Revista Retrato do Brasil.

 

 

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2 COMENTÁRIOS

  1. Morais,
    Acabo de publicar no Rio de Janeiro, por editoria própria, O Globo e o Brasil, uma visão crítica do jornal que se perdeu a si mesmo no país que jamais se encontrou a si próprio.
    Haveria algum interesse de se falar desse livro no blog?
    Mandem-me o endereço que mando um exemplar.

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