Brasil

O poder define o que são "fake news"- e a grande mídia é parte dele


Um espectro ronda as eleições deste ano – e não é certamente o do comunismo, como devem acreditar muitos patos amarelos e todas as galinhas verdes.
O espectro é o das “fake news”, esse tipo moderno de notícia falsa que serve à política não por ser mentira, mas por ser preferível à verdade, o que a faz tolerada por muitos, mesmo quando percebem que é mentira.
O conceito das fake news foi difundido mundialmente pela mídia privada, que costuma se posicionar no centro político e atacar o que entende por extremismo: a esquerda inteira, da mais moderada à mais radical, e a ultradireita, da qual ele diverge no tom e nos métodos, mas não necessariamente nos fundamentos e nos fins.
Um pilar da ideologia em torno das fake news, cuidadosamente construído pelo oligopólio da mídia corporativa, é de que elas são fruto exclusivo da internet, em particular das redes sociais.
Daí o cerco atual ao Facebook e a pregação por regulação severa e censura sobre os ambientes digitais – a mesma regulação e censura que essa mídia não aceita para os veículos tradicionais, nem mesmo para os seus próprios ambientes digitais.
Aqui no Brasil, a ideologia das fake news é difundida pelo sistema político que assaltou o poder em 2016: a aliança da mídia com o judiciário, o poder econômico e a política conservadora.
Para derrubar Dilma e construir a Ponte para o Futuro, pondo um fantoche no Planalto como mestre de obras, a aliança aceitou de bom grado o ingresso da extrema-direita ruidosa e delirante.
Mas agora tem eleição no horizonte e o poder instituído não quer o extremismo empoderado.
Quer um liberal mais limpinho e cheiroso no governo, para fazer o serviço antipopular que espera dele, sem espalhafato que excite a massa.
É por isso que o alvo inicial da guerra às fake news deste ano é o Movimento Brasil Livre, o nefasto MBL surgido do nada e incensado inicialmente como grande renovador da política, até demonstrar autonomia demasiada e um pendor extremista inconveniente.
Um vasto noticiário aponta o MBL, nas últimas semanas, como o maior difamador digital de Marielle Franco e um dos maiores propagadores de fake news no país. Até a Veja, com indiscutível conhecimento da matéria, o denuncia pela “arte de manipular”.
A pressão é tanta que o Facebook excluiu a página Ceticismo Político e perfil falsos ligados ao MBL.
Mas é ingênuo pensar que essa ofensiva à direita não vá, muito em breve, abrir um “front ocidental” contra a esquerda.
A rigor já abriu, visto que o jornalista Miguel Baia Bargas, do blog Limpinho & Cheiroso, foi condenado a 10 meses de prisão por calúnia e difamação contra Sergio Moro.
O Tribunal Superior Eleitoral já anunciou que vai pegar pesado com as fake news na campanha deste ano.
Neste domingo, uma coalisão centrista de veículos de comunicação, entidades acadêmicas, empresas de tecnologias e organizações da sociedade civil lança a Rede da Verdade – uma iniciativa de combate às fake news.
No discurso, as intenções são as melhores possíveis. Deseja-se evitar que as fake news iludam o eleitorado e distorçam o resultado das urnas.
Mas o fato é que o controle sobre o que é verdade ou mentira, e sobre quem será punido por divulgar fake news, estará nas mãos do mesmo sistema de poder que se apóia na grande mídia comercial – useira e vezeira em mentir e manipular, particularmente em período eleitoral.
A questão não será exatamente se a notícia é ou não falsa, mas a quem ela prejudica ou aproveita.
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