Brasil

De Marielle a Lula, um período de vastas emoções e pensamentos imperfeitos


No pula-pula de uma emoção a outra que caracteriza a mídia digital, as atenções da semana começaram com a paixão de Marielle Franco e terminam com o drama de Lula.
Como os personagens e sua dimensão pública são muito distintos, embora ambos venham do mesmo campo político, as emoções que mobilizaram também foram muito diferentes.
Marielle teve compaixão geral, excetuada a dos animais da extrema-direita, enquanto Lula recebeu amor e ódio em vastas proporções, equivalentes apenas na radicalidade.
O coquetel de sentimentos intensos afetou a percepção pública não apenas sobre os dois casos, mas também sobre o papel que a mídia desempenhou neles.
E levou a esquerda a algumas posições que, se não foram totalmente desatinadas, não primaram exatamente pela sensatez.
No caso de Marielle, setores da esquerda comoveram-se e aplaudiram o melodrama que a TV Globo produziu no Fantástico, sobre a vida da vereadora.
Mesmo vendo que ele foi abertamente manipulado para defender a intervenção militar na segurança pública do Rio de Janeiro – posição oposta à que a vítima defendia, até momentos antes de seu sacrifício.
Esses setores consideram que o perfil jornalístico apresentado foi decente e permitiu que milhões de brasileiros conhecessem Marielle.
Eles entendem que a Globo deve ser aplaudida porque demarcou distância das posições fascistas, defendendo os direitos humanos.
A Síndrome de Estocolmo eclode com mais facilidade, provavelmente, quando o algoz se apresenta limpinho e cheiroso, e tortura com mais carinho do que os brucutus do reacionarismo…
Já no julgamento de Lula, alguns defenderam que o televisionamento das sessões do STF fosse proibido.
O argumento para a censura foi o de combater o poder de coação da TV sobre o sistema político e institucional, em particular sobre as consciências e as vaidades dos juízes.
Ou seja: para evitar a pressão da opinião pública sensibilizada pela cobertura da TV, menos transparência nos tribunais e mais privacidade para os juízes.
Como se o poder midiático sobre a justiça e qualquer outro setor do Estado não se exercesse diretamente, olho no olho, com o barão da mídia sentado diante do servidor público e dizendo o que espera dele…
Às vésperas do julgamento, por exemplo, um dos irmãos Marinho tinha agenda marcada com a presidente do STF.
O agravamento progressivo da crise política expõe a vastidão dos problemas que a esquerda tem de enfrentar, para superá-la e recuperar as chances de voltar ao poder.
Entre esses problemas está, certamente, a mídia: o que esperar dela, como lidar, o que regular e o que proteger.
Por enquanto, ainda se vê nesse campo muitas análises rasas, ideias toscas e propostas abstrusas.
Elas não levarão a outra coisa, senão à preservação do status-quo.

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  1. É o Ministério da Verdade, de George Orwell ,re-escrevendo a história.Padilha deve ter lido.A mídia brasileira faz isso todo dia.Aplaudia a democracia,enquanto ajudava a implantar sangrentas ditaduras.Não mudou.

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