janeiro 23, 2020

Marcílio Godoi

É possível tirar poesia desse desgoverno, do Brasil atual? Marcílio Godói consegue. Seus poemas, quase prosa, provam isso. Aqui está sua segunda safra. E outras virão, semanalmente.

País deitado na lama

(Breve retrato em gerúndio)

A barragem explodindo, o museu derretendo,
a enxurrada arrastando, as milícias cobrando,
o dormitório carbonizando, o barro soterrando.
A ciclovia caindo, a ministra traficando,
a televisão mentindo, os pastores se aproveitando.
 
O ministro omitindo, o prefeito desviando,
o senador mentindo, o secretário fugindo,
as árvores entupindo, as pontes queimando.
Os prédios ruindo, as madrastas defenestrando
os padres abusando, os líderes espirituais assediando.
 
O vigia espancando, as famílias mendigando,
o exército invadindo, os soldados atirando,
as balas se perdendo, as crianças achando-as.
Os políticos assaltando, os guardas matando,
a justiça acobertando, os governos sequestrando.
 
O avião traficando, a febre aumentando
as tarifas subindo, a gasolina subindo
a carne subindo, a carne fraquejando.
A floresta incendiando, a praia acabando,
os bancos extorquindo, o Uber correndo.

Eu assistindo, o silêncio aceitando, a vida passando,
o gesto cansando, a verdade morrendo.

Amontoado de coisa imunda

Vocês aceitam cortes hemorrágicos na saúde pública.
Vocês dobram as taxas de mortalidade infantil
e o número de pessoas entulhadas no corredor.
Vocês matam gente.
Não me venham falar em mercado.

Vocês aprovam o bloqueio de recursos na Educação.
Vocês asfixiam aluno, professor,
extinguem o futuro da pesquisa.
Vocês estupidificam gente.
Não me venham falar em balança comercial.

Vocês incentivam o fim da cultura.
Vocês destroem carteiras escolares e bibliotecas.
Vocês propagam pensamento único à distância.
Vocês calam gente.
Não me venham falar em déficit público.

Vocês topam ser governados por apologistas da tortura. 
Vocês pagam milícias, mas sonegam impostos.
Vocês desprezam a civilização.
Vocês amordaçam gente.
Não me venham falar da cotação do Dólar.

Vocês promovem e protegem religiosos a troco de voto.
Vocês apoiam grupos terroristas e facções do crime organizado.
Vocês adoram aparecer rezando.
Vocês mentem descaradamente na cara da gente.
Não me venham falar de Deus acima de tudo.


Vocês compram votos de parlamentares.
Vocês aprovam o glifosato.
Vocês devastam, afundam, incendeiam, vazam.
Vocês queimam e envenenam gente.
Não me venham falar do PIB.

Vocês formam quadrilhas de juízes partidários.
Vocês compram e premiam delações à luz do dia.
Vocês chantageiam com investigações dirigidas. 
Vocês injustiçam gente.
Não me venham falar da taxa de juros.

Vocês destroem a soberania e as reputações.
Você entregam os recursos naturais.
Vocês doam aos estrangeiros o patrimônio estatal.
Vocês empobrecem gente.
Não me venham falar da tarifa bancária.

Vocês manipulam a imprensa.
Vocês compram robôs, distorcem e escondem.
Você protegem os donos do dinheiro.
Vocês manipulam gente.
Não me venham falar da taxa de inflação.

Vocês dilapidam as reservas
Vocês escravizam o trabalhador à morte
como faziam os senhores de engenho.
Vocês roubam gente.
Não me venham falar da taxa de emprego.

Vocês entregam recursos do povo
para salvar bancos de fachada.
Vocês agem como máfia e desrespeitam a lei.
Vocês humilham gente.
Não me venham falar de diplomacia e risco país.

Vocês negam a história.
Vocês tentam reescrever o passado.
Vocês querem apagar a ciência, em um exercício de dominação.
Vocês envergonham gente.
Não me venham falar de palavra escrita.