julho 23, 2019

Abrom Weintraum

Nesta deliciosa paródia, escrita especialmente para o Nocaute, o professor João Hansen recria “Metamorfose”, do húngaro Franz Kafka. Em vez de Gregor Samsa, o personagem central é Abrom Weintraum, o homem que amanhece transformado numa repulsiva kafta árabe.

Quando Abrom Weintraum acordou certa manhã depois de sonhos difíceis achou-se a si mesmo transformado em sua cama numa gigantesca kafta. Estava deitado do lado menos frito das costas, como se vestisse uma armadura redonda e marrom no peito e na barriga. Através da cicatriz de 15 cm que tinha onde deveria ficar seu ombro direito evolava-se intenso e enjoativo odor de azeite frito, alho, cebolinha e mais temperos árabes. Obtivera a cicatriz no início de sua profissão de contínuo numa repartição econômica no dia em que uma mala de shekels israelenses, rúpias indianas e dólares norte-americanos lhe caíra na cabeça quando tinha ido furtá-la para um cliente que ia fugir do país. O cadeado cortara a pele sensível do ombro; com o tempo, cicatrizara. Aos mais íntimos da sua família e aos poucos estranhos nos dias de culto, Weinwanze dizia que a obtivera num entrevero contra professores estalinistas que doutrinavam crianças nazistas.

Agora, deitado imóvel na cama estreita, abaixando o mais que pôde o que sentia ser o queixo, quando conseguiu ver o que seria barriga voltando os supostos olhos na direção do suposto umbigo, Weinalpdrucktraum vislumbrou uma superfície levemente arredondada, que formava um cilindro que o impedia de ficar totalmente deitado sobre as costas, fazendo que lentamente, sem querer, fosse oscilando para um lado e para outro, balançando o que imaginava ainda ser seu corpinho anterior. Sentia as pernas presas dentro da massa de carne – era carne? – enrolada e tentou ver mais e, coisa a que não estava nada nada habituado, pensar mais.

– O que aconteceu comigo? perguntou-se Weinalbtraum. Será que a Traub do vinho que bebi ontem com o pão ázimo do sacrifício que fiz ao Deus do Exército estava estragada e o vinho me fez mal causando esse pesadelo? E por que virei kafta, mein Gott, se esse churrasquinho árabe nada tem a ver com os alimentos do culto evangélico com que renego minha família sionista? Deve ser um pesadelo. Mas não era sonho. Seu quarto, um cômodo regular de um homem comum como todos os outros lumpen convertidos à austeridade sem imaginação da religião de evangélicos lumpen, estava quieto entre paredes familiares, lisas, pintadas de branco com manchas de mofo, sem decoração. Sobre a mesa, ao lado de uma Bíblia norte-americana, um montão desordenado de livros de filosofia, sociologia e história riscados, rasgados, folhas soltas, desencadernadas, amassadas. Abrom Weinarsch era baixo funcionário do Ministério da Rasura encarregado de eliminar obras inconvenientes para a boa formação evangélico-partidária de crianças e adolescentes . Não as lia. Só cumpria ordens. Riscava e rasgava e amassava e picava o que mandavam. Ou simplesmente picava e amassava e rasgava e riscava quando não entendia a ordem dada. Quase nunca entendia. Nem tentava, os livros lhe davam dor de cabeça. Os livros rasgados sobre a mesa eram do seu trabalho na repartição da Rasura. Tinha-os trazido para trabalhar em casa e adiantar o serviço. Numa das paredes Weinfloh tinha pregado a gravura que tinha recortado de um livro censurado. Devia ser católico. Ficava excitado com ela. Nela uma mulher nua de fartos peitos e olhar desvairado trepava com Jesus Cristo numa árvore de frutos desconhecidos. A mulher tinha a cara excitada sob cabelos revoltos. Jesus estava como nas gravuras dos católicos, manso como sempre, ao lado dela, que agarrava o pau com excitado desejo de salvação. A. Weinbillig virou parte dos olhos para a janela e para o céu – escutava os pingos de chuva batendo nos vidros – e ficou melancólico. Que tal dormir um pouco e esquecer o que o afligia? Tinha tanto trabalho a fazer. Mas não conseguia, porque o roliço do seu corpo de kafta o impedia de rolar para a direita, dormindo sobre o ombro direito e o braço direito e a mão direita. Só sabia ficar direito nas posições da direita. Violentamente, tentou ir para a direita, mas o esforço foi inútil e seu corpo voltou novamente sobre si mesmo, deixando ver o roliço da kafta tremelicando na barriga. Abrom Weinwanze tentou pelo menos umas cem vezes ir para a direita, mas seu corpo redondo ou roliço ou cilíndrico- os pés terminando em pontas, pensou que sua cabeça também estaria alongada e comprida e pontuda já que o corpo era uma kafta e… Abrom Weinalptraum tentou de novo, mais uma vez e outra e outra e só desistiu quando começou a sentir no que tinha sido o seu lado direito e que agora era uma superfície arredondada uma dor que nunca tinha sentido antes. Ó Grande Deus de Judas Iscariotes, pensou, que trabalho exaustivo! Será o mosto da uva ruim que azedou e podre estragou o vinho de uva ou a uva do vinho que bebi? Pensou que agora estava muitíssimo mais difícil fazer seu trabalho diário de riscar e rasgar páginas de livros, cansando os dedos, às vezes até machucando as mãos. Não os via mais nem os sentia. Agora, estava deitado ali, redondo e roliço por inteiro uma kafta que exalava um decidido e decisivo odor de carne frita com azeite de oliva. Carne do quê? assustou-se. Porco, se for Schwein, pensou, é maldição definitiva, ai, passar o resto da vida, que nem sei quanto vai durar, transformado em kafta de carne de porco. Quase vomitou de horror atávico e atávico nojo. Esperou fosse vaca. Ou cordeiro. E mesmo frango.Ou gato ou cão. Mesmo rato. Abrom era um tipo medíocre, estava habituado a ser humilhado.

Na repartição do Ministério, Weinschwein tinha feito alguns conhecidos, que o ignoravam totalmente, e tentado fazer amigos e logo desistido, quando viu que o desprezavam e ignoravam. Papai Satã que os carregue para a Geena de fogo! Enquanto pensava ressentidamente nos não amigos, sentiu sutil comichão na barriga, que lentamente se transformou numa dorzinha enquanto a pele crestada e marrom coçava sem que pudesse coçar-se. Um pedacinho de cebola aparecia enfiado na altura do seu umbigo. Seu corpo roliço de kafta não tinha mãos para coçar a barriga. Abrom Weinticken viu que, onde estava sentindo a coceira, parecia que carrapatos o picavam, havia pequenos caroços que não entendia, mais ou menos brancos, de uma natureza que não podia adivinhar. Pareciam farinha cozida pelo óleo que tinha fritado a kafta em grumos. Não era cebola nem alho. Tentou tocá-los com a ponta de uma das perninhas peludinhas cheias de farpinhas vermelhinhas que lhe tinham nascido ao lado do corpo – 6 ao todo, 3 de cada lado, como numa Billig, barata- no roliço da kafta como se fosse de repente uma barata de kafta ou uma monstruosa kafta barata. Imediatamente Abrom Weinbillig tentou puxar com alguma dor a ponta do que lhe parecia ser um pé pois foi como se um chuveirinho d’ água fria pingasse douradas gotas no seu corpo redondo como os golden showers de que seu chefe participava no fim do expediente quando se encontrava com outros chefes e subalternos para caçar, e usar e matar gays.

Abrom Weinlarve forçou o corpo para a direita mais uma e uma vez e voltou à posição anterior sobre as costas redondas. Ficar assim, pensou, deixa a gente muito estúpido. Um homem de valor precisa dormir direito para fazer bem seu trabalho. Outros vivem como mulheres de um harém. Por exemplo, quando um dia desses voltei da repartição para executar as ordens que recebi de queimar os livros apreendidos, aqueles caras estavam lá sentados tomando o café da manhã. Se eu tentasse fazer alguma coisa com o meu chefe eu seria despachado como um presunto por um dos filhotes dele. Seria melhor que estar aqui deitado transformado numa monstruosa kafta? Se eu não tivesse que fazer o que meu pai e o pai do meu pai e o Pai dos pais mandam eu teria sumido no mapa logo mas antes eu iria ao meu chefe e diria exatamente o que penso dele. Talvez isso o fizesse deixar seu Twitter por alguns segundos, mas podia ser perigoso porque ele é inesperado. Basta ver como seus olhos giram na cara sempre atemorizados como que pressionados por uma voz interior que ele não domina quando late. Não, sempre o melhor foi só cumprir ordens sem perguntar porquê. Só não sei porque hoje acordei transformado em kafta. Serão os bagos maus do vinho causa dos meus sonhos inóspitos? Serão as uvas podres do vinho? Die Traube von Wein. A grande porcaria da uva? Die grosse Traubschweinerei? O que será? Mas quando se fica muito perto do chefe é impossível falar com ele. Ele late muito. Weinhund é o que ele é, sim, um Weinhund, cão do vinho ou vinho do cão, pensou Weinbillig, barata do vinho ou vinho da barata, enquanto pensava que Weinscheise ou Weinmist eram bons nomes para classificá-lo como merda na merda daquela situação kaftaniana em que se achava. É difícil ouvir o chefe. Bom, ainda há esperança porque já guardei dinheiro suficiente para pagar as dívidas dos dízimos que meus pais não pagaram para o pastor que os repassa para ele. Se eu pagar, quando pagar, vou ficar bem com ele. Agora, seria melhor que eu conseguisse me virar do lado direito. Melhor ainda se eu conseguisse me levantar. Não consigo. Mexeu-se um pouquinho e o cheiro de óleo frito subiu até o teto e imediatamente desapareceu.

Olhou para o despertador do lado da cama. Santo Pai de Judas! exclamou. Passava das 6:30 da manhã, quase quinze para as 7. Por que o despertador não tinha despertado? Da cama dava para ver que tinha sido acertado para tocar às 4 h da manhã. De repente se abriu uma porta atrás da cabeceria da cama e uma voz suave de mulher velha : “Abronzinho, são 15 para as 7, filhote. Você não tem que ir ao Ministério?”

Que voz suave e doce! Abrom sentiu-se algo chocado ao ouvir sua própria voz responder à da mãe, pois ouvia nela um chiado, como o que se ouve quando a carne é fritada na frigideira para fazer kafta. Uma barata arrastando as pernas na folha rasgada de um livro faz um ruído semelhante … “Sim, mãe, estou levantando”. Outros membros da sua família perceberam que ele ainda estava em casa e não tinha saído para ir ao Ministério. Seu pai chamou, “Abrom, abre!”. E sua irmã, “Abronzinho, que está acontecendo com você? Você está bem?”. E ele, deitado sobre as costas, sentindo o roliço do corpo de kafta frita, respondeu que “ Jawohl, sim, claro, por Javé!”. E seu pai de novo pediu que abrisse a porta. Ele ficou aliviado pelo hábito que tinha adquirido: viajando ou em casa, sempre trancava a porta do quarto onde dormia. Sua intenção imediata era se levantar em silêncio sem ser perturbado, vestir as roupas de funcionário do Ministério da Rasgadura e comer alguma coisa, tinha muita fome, mas, antes, sair da cama, o que não sabia como fazer porque seu corpo era uma kafta.

Para se livrar do cobertor não houve dificuldade demais. Bastou encher as partes mais redondas da kafta que pareciam ser barriga e peito com um pouco mais de ar, o que conseguiu depois de algumas tentativas falhadas, e o cobertor escorregou e caiu no chão. Mas levantar-se era o problema porque, se de um lado seu corpo cilindríco não fornecia nenhum apoio para se erguer, por outro as pequenas perninhas que nasciam dos lados da kafta deitada atrapalhavam sua intenção de erguer-se. Mexendo-se sem parar em várias direções, três de um lado, três do outro, como se o corpo fosse um cilindro que terminava fino e enroladinho nos pés e, subindo, fosse engrossando, redondo e mais redondo, até à altura da barriga, para então ir diminuindo na direção da cabeça que não podia ver, mas que parecia também ter diminuído numa ponta enrolada como os pés. E, mein Gott, como cheirava bem! Dava vontade de se comer a si mesmo!! As perninhas se mexiam e ele não conseguia erguer-se. Mas pra que serve ficar deitado o dia todo na cama como uma kafta frita num prato com perninhas com vontade própria sem conseguir se erguer?

Abrom Weinsmade pensou que poderia sair da cama com a parte mais baixa do corpo primeiro, mas essa parte debaixo ele não tinha conseguido ver ainda porque a elevação do redondo da kafta do que devia ser sua barriga tornava difícil enxergar a extremidade do que seriam seus pés deitado como estava olhando para o teto. Mas tentou e tentou e, depois de algum tempo, desistiu. Era melhor ficar na cama porque doía muito quando tentava se erguer e caía pesadamente na outra ponta do corpo. Tentou mover a parte mais alta do corpo e com isso conseguiu erguer um pouco o que seria cabeça acima da beirada da cama. Se não conseguisse manter a cabeça elevada e ela caísse poderia perder a cabeça, literalmente, perdê-la embaixo da cama, por exemplo.

Abrom Weinwurm sonhou que sua cabeça estava cheia de merda. Não era sonho, mas a realidade do vinho. Weintraum, vinho do sonho ou sonho do vinho. Weinscheise, merda do vinho ou vinho de merda. Weinscheisetraum, sonho da merda do vinho ou vinho da merda do sonho ou vinho do sonho de merda ou sonho de merda do vinho, pensou, era impressionante o número de combinatórias das palavras. Nos livros isso devia ser pior. Elas só confundiam e era melhor riscá-las, eliminá-las, sem ler nenhuma, o que sempre tinha feito com empenho de funcionário exemplar, como acreditava ser.

Mas quando, depois da repetição dos mesmos esforços, permaneceu na mesma posição de antes uma e duas e quatro e dezesseis vezes e olhou as perninhas brigando uma com a outra mais selvagemente que antes, se é que isso era possível, viu que não havia nenhuma decisão imediata a tomar. A kafta exalava seu cheiro adocicado de carne frita temperada com alho cebolinha cebola. Carne de porco, sim, carne de porco. Abrom pensou, Weinschwein !!.Vinho de porco ou porco do vinho ! Mas também não importava mais que fosse porco, agora era evangélico e estava a salvo, pensou, olhando para a gravura da mulher trepada com Jesus numa árvore desconhecida que tinha a copa para baixo, nascendo na parte de baixo da Terra plana. Abrom se lembrou nesse momento da absurda quantidade de livros que mentiam descaradamente ensinando às pobres crianças absurdos como o que a Terra é redonda. Ele os tinha queimado a todos, um por um. Quando depois de uma repetição dos mesmos esforços permaneceu na mesma posição de antes, suspirando, e olhou as perninhas incontroláveis brigando umas com as outras mais ferozmente que antes, se é que isso era possível, e viu que não tinha nenhum jeito de por ordem na sua confusão, disse para si mesmo que era impossível continuar na cama e que a coisa mais urgente a fazer era dar um jeito de arriscar tudo para cair fora dela. Ao mesmo tempo tentou fazer entender a si mesmo que era preciso manter a ponta da kafta que devia corresponder à sua cabeça o mais fria e calma possível. Kafta frita fria. Já 7 h, disse, e ficou quieto por um momento. Quando for 7 e 15 já vou estar fora dessa cama. Pensou em chamar seu pai e Frau Goering, a faxineira. Eram fortes, conseguiriam facilmente passar os braços por baixo da parte inferior da kafta e erguê-lo. Num esforço inesperado, conseguiu se jogar fora da cama e ficou ali, no chão, arfando como porco. Melhor dizendo, não se jogou, escorregou e escorreu para o chão com um barulho surdo, como se um saco cheio de 100 chocolates caísse e 30% deles, ou seja, três deles, escorressem para fora. De todo modo, quando conseguiu sair da cama e caiu no chão, bateu a cabeça no urinol e sujou a cara com os restos da noite. Sentiu-se mal porque não tinha braços e mãos para limpar-se. Abrom Weinscheise Abrom Weinmist Weinscheise Abrom Scheise Mist Abrom, disse em voz alta. Merda merda merda. A cabeça doía onde tinha recebido a batida. E agora o cheiro de carne frita de porco se misturava com o de merda de porco e urina de suíno. Ou, em outra ordem, o de urina de porco e merda de suíno. A lembrança dos chocolates adoçou imaginariamente o odor e Abrom Weinarsch sentiu-se um pouco confortado .

“Tem alguma coisa caindo no chão do quarto ao lado”, bradou o pastor do quarto que ficava à direita. Abrom Weinchalptraumscheise tentou supor que o que tinha acontecido com ele desde que tinha acordado kafta poderia acontecer um dia com o pastor. Ninguém podia negar que isso era possível. Mas, no quarto vizinho, o pastor pisou o chão com passo de ganso enérgico e suas botas rangeram saudosas de Raum und Blut und Boden. Do outro lado, a irmã de Abrom Weinfloh o avisou de que o pastor estava lá perguntando porque Abrom Weinzug não tinha tomado o trem da manhã para ir ao trabalho. Não sabemos o que dizer ao pastor, disse ela, mas ele quer falar com você pessoalmente, então abra a porta, ele saberá lhe desculpar pela bagunça do seu quarto. Você está pelado, querido irmão? Bist du geschält, lieber Bruder?”. E o pai falou, do outro lado, “Mein Weinschön, bitte, o pastor quer falar com você e saber porque você não pegou o trem hoje, mas ele saberá desculpar a bagunça porca do seu quarto. Se você ainda está nackt, bitte, tenha a decência de pôr a cueca e ficar decente”.

Guten Morgen, Herr Weinschwein, disse o pastor do lado de fora da porta. Por favor, quero entrar para lhe falar frente a frente. O senhor está pelado ainda? Por favor, fique decente frente a um homem de Deus. – Ele não está bem, meu senhor, ele não está bem. Era a voz da mãe. -O que mais podia fazer ele perder o trem? Ele só pensa no seu trabalho. Ele traz coisas pra fazer em casa e nunca se cansa de rasgar livros, riscar páginas, arrancar capítulos. É um bom moço, pastor, um bom moço. Ele até merece promoção. Ele sempre nos diz que gostaria de prender professores que fazem propaganda de ideias subversivas na universidade para não permanecer numa posição subalterna na carreira de riscador e rasgador de livros. Ele quer subir na vida e gostaria de estudar técnicas aperfeiçoadas de queimar livros, é o que ele sempre nos diz, senhor. É um bom moço, senhor pastor.

– Mamãe, papai, irmã, digam ao senhor pastor que eu já vou indo. Mas ficou estatelado no chão, incapaz de se mover. Se o pastor entrasse, ia ver uma kafta de 1m 70 cm exposta pelada ou nua e redonda marrom tostada cheirando a azeite de oliva alho cebolinha e cebola uma grande grosse geschälte Kafta kafta pelada. O que ia fazer? Weinalptraumschweinscheisenackt pensou. Mas por que sua irmã não desviava o pastor? Ele ia punir seus pais novamente cobrando todos os dízimos atrasados? Aquilo era um montante bem alto. Pobre papai, pobre mamãe, pensou. Era melhor ficar quieto em silêncio esperando, Weinwartig, quieto como uma kafta fria na vitrine do restaurante árabe da esquina em que nunca tinha entrado.

– Senhor Abrom Weinalptraum, o pastor chamou do lado de fora com voz mais alta, o que está acontecendo? Olhe o senhor aí, fechado no seu quarto, respondendo só não ou sim, causando grande preocupação em seus pais que já são idosos e esquecendo seu trabalho, a responsabilidade que deve ter em seu trabalho de rasurador. Olhe, estou falando aqui em nome do seu chefe e em nome dos seus pais, por favor me deixe entrar para ouvir uma explicação precisa do que está acontecendo com o senhor. Com o senhor, por favor. Eu até agora acreditava que o senhor era apenas um funcionário medíocre, mas exemplar, riscando e rasgando e queimando livros no Ministério da Rasura. Mas agora vejo que me equivocava. O senhor está fazendo uma desagradável exibição de si mesmo. Quando fiz meus votos de fidelidade ao Grande Mestre-Chefe do Universo, prometi que nunca nada parecido aconteceria com minha permissão. Mas agora vejo que acontece e sem a minha permissão. Vim aqui esperando que o senhor me abrisse a porta para eu lhe falar em particular. Mas como o senhor não a abriu me desrespeitando a autoridade de que estou investido pelo Grande Chefe-Mestre, tenho que lhe dizer que vou deixar os seus pais ouvir tudo o que tenho a falar. O senhor sempre foi um funcionário mediocremente cumpridor dos seus deveres de rasurar, rasgar e queimar livros. Mas eu deixei passar, acreditando que, com o tempo, o senhor faria progressos. Mas o senhor é medíocre, não fez nenhum. E agora, com esse comportamento, o senhor não está fazendo nada do que já fazia sempre de modo muito insatisfatório. Nem esse pouco ruim que fazia o senhor está fazendo agora. Isso, obviamente, pede punição, porque isso, Gott sei dank, é inadmissível.”

“Mas senhor pastor, gaguejou Weinkafta, por favor, senhor pastor, eu estou abrindo a porta já. Uma doencinha, um ataque de gota, me impediu de levantar hoje de madrugada. Ainda estou deitado na cama. Mas já me sinto bem, mein Herr Pastor. Estou me levantando da cama agora. Por favor, me dê um tempinho. Não estou bem como estava ontem, mas já estou melhor, senhor pastor, Herr Pastor, Heil Pastor, Sieg heil, mein Herr Pastor. Por favor, perdoe meus pais, não execute a cobrança dos dízimos atrasados. Prometo que vou me levantar, já estou me levantando agora mesmo. Por favor, não diga nada ao Chefe. Prometo trabalhar dobrado, triplicado, aumentando minha cota de livros rasurados e rasgados e queimados. Vou mostrar serviço. Faço questão disso. Sou um homem de palavra e vou mostrar serviço. Por favor, mein Herr!”.

Ele estava mesmo decidido a abrir a porta, se conseguisse se mover do chão onde jazia deitado. Abrir a porta e falar com o pastor. Estava aflito por saber o que os outros diriam ao vê-lo no estado de kafta em decomposição em que estava. Se ficassem horrorizados, bem, a responsabilidade não seria dele, mas deles. E, se ficassem calmos, então não haveria nenhuma razão para preocupar-se. Rolou para a esquerda e rolou para a direita de modo cada vez mais forte. Com isso conseguiu rolar até a porta do quarto. O problema era girar a chave para destrancar a porta. Do outro lado a mãe e o pai e a irmã e o pastor o esperavam. Com duas perninhas do lado direito conseguiu empurrar almofadas que estavam no chão para perto da porta e rolar sobre elas até sua boca ficar à altura da fechadura. Agarrando a chave com a boca, girou-a para a direita. A fechadura deu dois estalidos e Abrom Weintraum percebeu que a porta estava destrancada. Do outro lado, o pastor gritou, “Ouçam, ouçam, ele está abrindo a porta!”. Weindummkopf pensou, “felizmente não precisei chamar o chaveiro”.

Quando a porta se abriu, a mãe dele desmaiou com o espetáculo da kafta que falava roliça no chão como um filho da mãe. O pai nada disse e ficou mudo num canto. A irmã se assustou e fechou-se no quarto dela. Quanto ao pastor, ordenou àquele Abrom Weinhurensohn filho da puta do vinho ou do vinho do filho da puta que parasse de fazer palhaçada e despisse a fantasia de kafta. E Abrom Weinalptraum como que saindo de um pesadelo: “ Senhor, Senhor Pastor, bitte, não vá embora sem uma palavra para mim que me mostre que o Senhor pensa que estou no caminho certo, pelo menos numa certa extensão”. Mas o pastor olhava para ele em silêncio com os lábios apertados de reprovação. Os pais de Abrom Weinalpdruckalptraum olhavam, consternados. Tinham sempre pensado que Abronzinho tinha um lugar assegurado no Ministério da Rasura para toda a vida.O pastor devia ser detido, trazido de volta, impedido de sair, todo o futuro de Abrom e da família dependiam disso. Mas o pastor fugiu apertando sua Bíblia no peito e o pai de Abrom, desolado, ficou ali, olhando aquela massa de carne frita que se espalhava dentro do quarto e um pouco para fora, pelo intervalo da porta semiaberta. A mãe de Abrom chorava em silêncio.

2

Era noitinha quando Abrom acordou. Do seu lado esquerdo, percebeu, saía um líquido pelo buraco deixado por uma das perninhas quando tinha sido arrancada quando tentara sair pelo espaço entreaberto da porta. Lá estava ela, mexendo-se sozinha, presa na maçaneta.Um cheiro de carne de porco com cebolinha e alho e azeite de oliva frito dominava tudo. Abrom Weinalpdruckschweintraumhunger sentiu fome, muita fome. O cheiro de comida vinha do seu próprio corpo de kafta. Ele quase riu de alegria. Mas logo ficou muito desapontado. Só podia comer com ajuda de todo o seu corpo. E não gostava de kafta.

Viu que tinham acendido a luz do lado de fora do seu quarto. Era a hora em que papai lia no jornal em voz alta para sua mãe e sua irmã a coluna diária da Folha do Estado sobre os pogroms cometidos contra o seu povo por professores comunistas. Ficou melancólico, comovido com o pai, e uma furtiva lágrima molhou a carne da kafta onde devia ser seu olho direito. Silêncio total lá fora. Que vida calma minha família está levando, pensou orgulhoso por ter garantido o conforto de pai, mãe e irmã naquele ótimo apartamento funcional com seu trabalho. E se perdessem tudo? Para esquecer esses pensamentos ruins, Abrom virou e rolou e rolou de um lado para outro seu corpo de kafta redonda. Espantou-se com a familiaridade que demonstrava com seu corpo kafta. Pensou que até que não estava totalmente mal e se preparou para dormir porque já era tarde e pela porta entreaberta viu que as luzes estavam todas apagadas. Tinha caído da cama e, estirado no chão, pensou que ia dormir embaixo de um sofá que ficava encostado numa parede do quarto. Tentou rolar para baixo dele, mas as costas da kafta eram altas e rasparam na armação de madeira do fundo dele, deixando pedacinhos grudados nela que depois se rasgaram um pouco numa das molas que estava quebrada. Ficou ali a noite toda, sentindo fome e uma vaga vergonha. Mas também uma pequena esperança de que, com paciência e perseverança, poderia convencer o pastor, quando voltasse, a encaminhá-lo para o Ministério da Rasura onde retomaria com afinco o trabalho. Não tinha mãos para riscar livros, pensou, e aquelas perninhas que brigavam umas com as outras não ajudavam em nada. Mas estava mais pesado e, com certeza, podia rolar sobre os livros engordurando-os com seu corpanzil redondo donde escorria um suco de carne com cebola e alho tornando-os ilegíveis. Muitos são os caminhos do Senhor, pensou confortado.

Passou um mês e Abrom percebeu que a kafta do seu corpo tinha secado muito em diversas partes de cima. Em outras, e isso o deixava excitado, tinha apodrecido. Sentia-se mais leve e, ao mesmo tempo, mais duro nas juntas. Pensava no Ministério, na montanha de livros que teria para rasurar e rasgar.

3

O que deixou Abrom sem ação pelo menos por mais um mês foi a maçã. Ela estava no chão jogada pela sua mãe ou pai ou irmã e grudou nas crostas amolecidas da kafta do que tinham sido suas nádegas. Pouco a pouco foi penetrando pelo orifício do seu ânus de kafta ou Kaftarsch que ficou hermeticamente entupido por ela. Ninguém ousava retirá-la. A maçã no cu diminuiu-lhe muitíssimo as ações e Abrom ficou semiparalisado como um velho inválido ouvindo a família conversar à hora do jantar falando de coisas triviais do dia a dia. Sentia que o seu corpo de kafta dia a dia inchava exalando um cheiro de coisa podre. Infelizmente, não tinha boca para comer-se a si mesmo, pensou com nostalgia. Felizmente seu pai tinha reconhecido que ele era um membro da família apesar da sua forma agora repulsiva. Não devia ser tratado como inimigo. Ao contrário, o dever da família requeria e exigia a supressão do nojo e o árduo exercício da paciência, nada mais a não ser paciência. Agora, seu pai sua mãe e sua irmã estavam silenciosos, muito mais quietos que antes. A relação dele com eles não tinha mais o calor de antes. Vater, Mutter und Schwester estavam mais quietos. Logo depois do jantar papai dormia na poltrona e mamãe a a irmã faziam sinais de silêncio para uma e outra; mamãe costurava uma ou outra peça de roupa e sua irmã que tinha arranjado emprego numa loja aprendia Português para melhorar o currículo. Ás vezes depois de um ronco mais alto o pai acordava e dizia para a mulher “quanto remendo você fez hoje!” e voltava a dormir enquanto as duas mulheres trocavam um sorriso.

O pai de Abrom era aposentado mas continuou a usar seu uniforme de limpador de forno crematório mesmo em casa. Por consequência, seu uniforme sempre limpo passou a parecer encardido e sujo apesar dos esforços da mãe e da irmã em mantê-lo em ordem. Abrom começou a passar o tempo observando as manchas de gordura nele, vendo como os seus botões dourados estavam sempre polidos e brilhantes. O velho se sentava com eles e muitas vezes sobre eles, pacificamente, com extremo desconforto, mas sempre muito obediente, sempre como quem cumpre ordens.

Abrom começou a perceber que sua família estava despejando em seu quarto todas as coisas que não usava mais e não queria jogar fora. Sua extensão de kafta amolecida na parte das costas, embaixo, e totalmente seca e começando a gretar e a esfarelar na de cima agora estava sendo coberta por cadeiras quebradas, uma escrivaninha, um cinzeiro velho desses com uma haste de ferro enferrujado servindo de base, a velha lata de lixo da cozinha, rolos de arame farpado que o pai de Abrom tinha trazido do campo, uma cadeira de balanço e mais coisas velhas, quebradas, inúteis. E agora mais três pessoas estavam morando em sua casa, três homens de barbas compridas, um mais velho a quem os outros dois mais moços pareciam obedecer batendo continências. Quando o pai de Abrom chegava, eles se erguiam e pareciam fazer uma prece antes de comer. Eles comiam em total silêncio. Mas, para comer, Abrom concluiu, era preciso ter dentes que mordiam e mastigavam. Sendo kafta, não tinha nenhum e, com muita tristeza, tristemente pensou e tristemente pensava várias vezes Estou com fome, Ich habe Hunger!

Estou com muita fome, estou realmente faminto, mas essa comida toda não é para mim. Como esses hóspedes estão engordando e aqui estou eu morrendo de fome como uma kafta podre. E sem poder voltar ao Ministério onde tanto trabalho de rasura me espera! Os três homens tinham paixão por ordem e não toleravam nada supérfluo, como os poucos livros da casa, que queimavam com a ponta dos cigarros.

A irmã de Abrom tocava violino e uma noite em que começou a tocar os três homens correram para a cozinha onde ela estava e se apertaram na porta para ouvi-la. Abrom também quis escutá-la e, sem se importar com eles, rolou uma parte da kafta para a direita, na direção da porta da cozinha, e ficou ali, esticado, enquanto eles, absortos pela música, pisavam nele sem perceber. De repente, saíram os três dali ao mesmo tempo e foram fumar na sala, dando sinais de que a música era ruim e pior a execução. Diziam que a música fedia. Mas a irmã de Abrom estava tocando divinamente. Os três julgavam diferentemente.

Quando parou de tocar, a irmã de Abrom disse ao pai que já era mais que tempo de se livrarem dele porque já estava fedendo. O pai concordou e a mãe começou a tossir na mão direita com um olhar louco nos olhos. – É preciso nos livrarmos dele o quanto antes, disse a irmã, antes que ele liquide com a gente. Quando se tem de trabalhar duro como nós trabalhamos, não se pode suportar esse contínuo tormento em casa. Não consigo mais aguentar isso. E ela começou a soluçar e as lágrimas caíam na cara da mãe. – Mas meu bem, disse o velho, o que nós podemos fazer? A irmã dele deu de ombros. Se ao menos ele pudesse entender a gente, mas é uma kafta podre. – Ele deve ir embora, gritou a moça. Por favor, o senhor deve esquecer essa sua ideia de que esse monte de carne podre é seu filho ou meu irmão. Acreditamos nisso durante muito tempo. Mas agora como isso pode ser Abrom? Vamos nos livrar disso e guardar a lembrança de Abrom como aquele bom rapaz bom funcionário do Ministério da Rasura que gostava de riscar e rasgar e queimar livros. Vamos fazer isso.

A maçã podre em seu cu e a região inflamada em torno dela, tudo coberto com poeira e o cheiro de coisa podre fizeram Abrom pensar na sua família com ternura e amor. E assim ficou até que o relógio da torre bateu três horas da manhã. De manhãzinha, quando chegou, a faxineira Goering viu Abrom esticado no chão e, com a vassoura, tentou varrê-lo. Ele não reagiu e ela o varreu com mais força para fora do quarto. No corredor, ela bateu na porta dos pais de Abrom gritando, venham ver, venham ver, bitte, ele está aqui, morto, já podre, esfarinhado.

Os pais de Abrom saíram rápido da cama. – Morto? O pai perguntou. – Sim, morto, a faxineira falou, empurrando um pedaço de kafta com salsinha e cebolinha com a ponta da vassoura .- Bem, graças a Deus, disse o pai de Abrom. -Vejam como está magro, apesar de inchado porque apodreceu. – Sim, disse o pai, parece que não come nada faz tempo.

O corpo de Abrom estava lá, chato no chão, aos pedaços, seco em cima e mole embaixo. Os três hóspedes de barba levantaram e reclamaram o café. Mas a faxineira fez um sinal de silêncio e mandou que fossem até o quarto de Abrom. Eles foram e lá ficaram em volta do corpo da kafta. – Vão embora daqui, gritou o senhor Weintraum. Os três olharam, espantados.- Como? – Caiam fora! Os três saíram, meio espantados com o amor do velho por aqueles restos de kafta podre.

(*) João Hansen é doutor em literatura pela USP, professor, crítico literário, pesquisador, ensaísta e historiador da literatura brasileira. Seu livro “A sátira e o engenho” é considerado o mais completo estudo sobre Gregório de Matos e a Bahia do século dezessete. Em 1990 recebeu o prêmio jabuti, na categoria ensaio.