Brasil

Incêndios na Amazônia: uma praga sazonal “amplificada pelas posições de Jair Bolsonaro”.

Segundo a economista Catherine Aubertin, o presidente brasileiro colocou em prática “um sistema de enfraquecimento das instituições ambientais” para tirar proveito da região.

Laura Motet | Le Monde

“Reze pela Amazônia”. Por várias semanas, os cidadãos estão se movendo pelas redes sociais por causa de incêndios florestais que estão devastando a região. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), as queimadas aumentaram 83% desde o início de 2019 em relação ao ano anterior. O desmatamento cresceu 67%. Um aumento ainda mais preocupante, já que este é um recorde desde 2013.

Para Catherine Aubertin, economista ambiental e diretora de pesquisa do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento, esses incêndios podem “exacerbar de maneira duradoura os efeitos do aquecimento global”.

O aumento dos incêndios florestais e o desmatamento podem estar ligados à chegada de Jair Bolsonaro, altamente cético em relação ao clima?

Todos os anos, o número de incêndios em terras ​​aumenta em julho no Brasil. Isto não é uma coincidência: corresponde ao final da estação chuvosa. Este é o momento em que as áreas já trabalhadas pelo homem – especialmente para a manutenção de pastagens – são queimadas para tornar as florestas terras aráveis. O desmatamento é feito primeiro removendo a madeira e depois queimando a vegetação remanescente. Os incêndios também aumentaram drasticamente devido a uma seca muito significativa neste ano.
Mas essa explicação “sazonal” é amplificada pelas posições do novo presidente brasileiro. Desde o início, Jair Bolsonaro disse que a Amazônia é um território improdutivo, formado por terras indígenas e unidades de conservação, que devem ser integradas à economia brasileira. Para fazer isso, ele colocou em prática o enfraquecimento de todo um sistema de instituições ambientais, acusando-as de serem “máquinas para distribuir multas”.

Também reduziu o orçamento do Ibama, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais, em quase 75% e dispensou 28 diretores regionais desta organização criada para punir crimes ambientais. O mesmo no Instituto Chico-Mendes (ICMbio), responsável pelo monitoramento e proteção da biodiversidade das unidades de conservação, como parques naturais. Ele demitiu em abril quase todo o pessoal da organização. Também demitiu Ricardo Galvão, presidente do INPE, equivalente da NASA, que desde 1988 desenvolve ferramentas de análise de satélites para avaliar o desmatamento e incêndios na Amazônia.

A comunidade internacional tem algum meio de coação sobre Jair Bolsonaro?

A comunidade internacional está tentando pressionar Brasília. Em julho, Emmanuel Macron disse que se o acordo climático de Paris não fosse respeitado no Brasil, ele não ratificaria o acordo de livre comércio entre a União Européia e o Mercosul (o mercado do cone sul que inclui vários países da América do Sul, incluindo o Brasil).
Além disso, os países doadores do fundo de conservação da floresta amazônica estão bloqueando suas doações. Doações substanciais (30 milhões de euros da Noruega, 35 milhões de euros da Alemanha), que vão para ONGs ambientais, mas também em grande parte para as instituições ambientais do Estado brasileiro.

Jair Bolsonaro, neste momento, finge que essas pressões não têm efeito sobre ele. Ele reagiu a esses bloqueios dizendo que não precisava de subsídios e que a comunidade internacional não tinha voz. “A Amazônia é nossa, não de vocês” , disse ele, repetindo a retórica dos militares dizendo que os países desenvolvidos querem internacionalizar a Amazônia. Ele também acusou ONGs ambientais de serem pagas por potências estrangeiras e de promoverem incêndios para atrair a atenção de financiadores estrangeiros, uma vez que cortou o fornecimento de alimentos.

Note, no entanto: se a atenção da comunidade internacional está voltada para a Amazônia, território com forte carga simbólica no imaginário coletivo, não devemos esquecer todos os outros espaços do território brasileiros também afetados pelo desmatamento. Porque se hoje estamos alarmados que a Amazônia está desmatada em 20%, também devemos olhar para o caso do Cerrado, uma savana localizada no centro do Brasil, metade da qual já foi desmatada. Querendo proteger a Amazônia, especialmente ao se recusar a importar produtos (carne, soja, cereais …) dessa região, nós na verdade participamos da mudança da produção para outros espaços como o Cerrado, cujo destino se move menos no exterior.

As escolhas de Jair Bolsonaro a favor do desmatamento e queimadas provavelmente piorarão o aquecimento global?
Sim. Há muito se pensava que o ponto crítico, o chamado processo de “savanização”, seria alcançado quando 40% da Amazônia fosse desmatada. Hoje, percebemos que esse ponto já foi atingido, em 20%.
De fato, o desmatamento e esses incêndios fazem parte de uma ruptura global do sistema climático. O desmatamento e o desmatamento por queimadas causam um aumento nas emissões de gases do efeito estufa: as árvores não estão mais lá para capturar a água do planeta no solo e evaporá-la para causar chuva. Esse tipo de problema já está sendo observado nas estações chuvosas posteriores e mais curtas na bacia do Prata, na Argentina e no sul do Brasil.

Teme-se que essa mudança no regime de chuvas, ligada ao desmatamento e ao fogo, exacerbará os efeitos do aquecimento global, que por sua vez afetará a vegetação. A retroalimentação da vegetação e do clima ainda é pouco conhecida e é essa incerteza que torna esses incêndios ainda mais preocupantes.

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