Propaganda eleitoral só na internet é ameaça à democracia

Quem quer ter uma democracia precisa arcar com seus custos. E lembrar que para ter eleição justa, a escolha entre nomes e programas depende de uma campanha eleitoral com divulgação e debate sobre as propostas.

É quase impossível encontrar no Brasil atual um assunto que obtenha unanimidade de opiniões, com as posições políticas radicalizadas e a intolerância em nível estratosférico.

Mas esse assunto existe. É a comunicação política, ou propaganda eleitoral.

Todos dizem querer a democracia no país, mas praticamente ninguém quer pagar o seu preço. A começar daquilo que configura e institui a democracia: as eleições periódicas e regulares.

Onde há eleição, um processo de escolha entre nomes e programas, há que ter campanha eleitoral, a divulgação e o debate desses nomes e programas.

Mas a quase totalidade do eleitorado só critica as campanhas. Acha que são caras demais, longas demais, publicitárias demais e sinceras de menos.

Incontáveis campanhas da publicidade comercial são tudo isso, mas ninguém reclama delas. Insuportável mesmo, para o eleitor brasileiro típico, é apenas a propaganda eleitoral.

Neste momento, está em debate uma reforma política que divide direita, esquerda e os políticos de todos os partidos.

Mas todos concordam que é um absurdo alocar 3 bilhões e 600 milhões de reais num fundo público, para financiar as campanhas eleitorais.

Vende-se ao público a ideia de que o custo altíssimo das eleições se deve à comunicação, quando o grosso do dinheiro vai para a compra de apoio.

E a solução mágica que todos enxergam para barateá-la é a internet. Por que gastar com rádio e TV, se é possível fazer propaganda baratinho nas redes sociais?

Alguns defendem até que a própria política representativa seja substituída pela esfera digital. Que os cidadãos deliberem sobre as políticas públicas, votando nelas pela internet, eliminando a necessidade de representantes parlamentares.

Mas as redes sociais e a internet, de modo geral, não estão infestadas de fake news, informações falsas e distorcidas?

A distribuição do que é postado não é feita automaticamente, por algoritmos que escolhem quem vai ver ou não?

As pessoas não se agrupam em bolhas de opinião, que não dialogam mais entre si?

E pior ainda: quem é gente real e quem é robô, no mundo desregulado e selvagem das redes sociais?

Um estudo importante da Fundação Getúlio Vargas, divulgado há poucos dias, informa que 11% dos debates nas redes, durante as nas eleições de 2014, foram estimulados por robôs – perfis que não correspondem a pessoas de verdade e que são criados exatamente para confundir, não para explicar nada.

Numa das manifestações a favor do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, 10% das interações nas redes foram impulsionadas por robôs.

Na eleição municipal de São Paulo, também no ano passado, a proporção de robôs nos debates variou de 8 a 11%, dependendo da bolha de simpatia a cada candidato.

A internet é uma ferramenta fabulosa e é através dela que esse tipo de informação, e muitos outros tipos, chega até nós.

Mas acreditar que ela seja a ferramenta definitiva para a comunicação política é um erro.

Um erro tão grave quanto achar que é possível haver democracia sem eleição, e eleição sem campanha.

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